Visite
ensino
Feira Virtual de Ensino de Botânica

Como estratégia didática para formação de professores de Biologia, e incorporando princípios extensionistas, nas ofertas semestrais de Organografia e Sistemática Fanerofítica para a Licenciatura em Ciências Biológicas, organizamos uma Feira Virtual de Ensino de Botânica, onde os licenciandos desenvolvem aulas baseadas em projetos para exercitar o método científico no aprendizado de conteúdos do ensino básico sobre plantas (e mais). Algumas dessas aulas estão disponibilizadas aqui, gratuitamente, para o estímulo e a inspiração da inclusão tanto da abordagem baseada em projetos quanto do conteúdo sobre biologia de plantas nas salas de aula do ensino básico.
PIGMENTAÇÃO NATURAL COM PLANTAS NATIVAS
A aula proposta tem como tema central a descoberta dos pigmentos naturais presentes nas plantas fanerógamas do Cerrado, explorando a relação entre ciência, arte e cultura regional. O objetivo é promover uma experiência sensorial e criativa com as crianças, estimulando a observação da natureza, o reconhecimento de espécies típicas e o entendimento de como as plantas produzem cores que podem ser utilizadas em materiais do cotidiano.
Este material foi desenvolvido pelos discentes: Bianca Santos, Beatriz Carvalho, Pedro Silva, João Vitor Mello, Julia Fernandes, do semestre 2025-2.
1. Público-alvo e duração
A proposta é voltada para turmas do ensino fundamental I, preferencialmente do 3º ao 5º ano, embora possa ser adaptada para a educação infantil. A duração total prevista é de 60 a 80 minutos, podendo ser dividida em dois momentos: introdução e experimentação (primeira parte) e produção artística (segunda parte).
2. Objetivos gerais e específicos
O objetivo geral é reconhecer as plantas fanerógamas como fontes de pigmentos naturais e compreender sua importância ecológica e cultural no Cerrado.
Os objetivos específicos incluem:
Identificar espécies nativas do Cerrado que produzem pigmentos coloridos.
Explorar a produção artesanal de tintas a partir de materiais vegetais.
Desenvolver a expressão artística e a curiosidade científica.
Estimular o cuidado com o meio ambiente e o respeito à biodiversidade local.
3. Justificativa pedagógica
O estudo das plantas pigmentantes do Cerrado permite integrar conteúdos de ciências naturais, arte e educação ambiental de forma prática e significativa. A atividade favorece o aprendizado experiencial, por meio da observação direta e da manipulação de materiais naturais. Além disso, reforça a identidade regional e o pertencimento, pois muitas crianças convivem com essas plantas, mas desconhecem seus usos tradicionais. A proposta também se alinha à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ao promover o desenvolvimento de competências relacionadas à curiosidade investigativa, ao pensamento científico e à valorização dos saberes locais.
4. Materiais necessários
Os materiais foram escolhidos pela simplicidade e pela possibilidade de reaproveitamento.
● Três pigmentos vegetais do Cerrado previamente preparados (urucum, cúrcuma e jenipapo, por exemplo - vide tabela de plantas e pigmentos).
● Tigelas pequenas ou copos plásticos transparentes.
● Colheres ou palitos de picolé para mexer.
● Folhas de papel reciclado ou pedaços de tecido de algodão
● Pincéis simples, cotonetes ou pedaços de esponja.
● Jornal velho para forrar as mesas.
● Vinagre e bicarbonato de sódio para testes de variação de cor.
● Panos ou toalhas para limpeza.
Todos esses materiais podem ser obtidos facilmente e não oferecem risco à saúde das crianças, desde que o contato direto com o fruto verde do jenipapo seja limitado.
5. Metodologia e sequência didática
A aula será dividida em quatro etapas principais: introdução, experimentação, produção artística e socialização dos resultados.
Etapa 1. Introdução e sensibilização (15 minutos)
O professor inicia a aula com uma breve conversa sobre o Cerrado, mostrando imagens de suas paisagens e plantas típicas. Em seguida, pode-se narrar um pequeno conto ou lenda do Cerrado, como a história de uma árvore que “dava cor ao mundo” ou uma releitura de mitos sobre o ipê e o urucum. O objetivo é despertar a imaginação das crianças e conectar o tema da pigmentação à natureza e à cultura regional.
Após a contação, o professor explica que as plantas produzem substâncias chamadas pigmentos, que servem para atrair polinizadores, proteger contra o sol e dar cores às flores e frutos. Esses mesmos pigmentos podem ser usados para fazer tintas naturais.
Etapa 2. Experimentação com pigmentos (25 minutos)
Os alunos serão divididos em grupos de três a quatro integrantes. Cada grupo receberá pequenas porções dos pigmentos selecionados. O professor orientará a mistura com água morna para ativar as cores. Em seguida, será proposto um pequeno experimento: acrescentar algumas gotas de vinagre em um copo e uma pitada de bicarbonato em outro, observando como a cor muda. Essa observação introduz de forma lúdica o conceito de variação de pH e demonstra como substâncias ácidas e básicas interagem com os pigmentos vegetais.
Etapa 3. Produção artística (20 minutos)
Com as tintas prontas, cada criança produzirá uma pintura inspirada no Cerrado. O professor pode sugerir temas como flores, ipês, frutos ou animais típicos, ou deixar o desenho livre. Outra opção é propor que os alunos ilustrem o conto contado no início da aula, transformando a narrativa em imagens. O uso das tintas naturais cria um vínculo direto entre a natureza e a expressão criativa, além de reforçar o aprendizado por meio da prática.
Etapa 4. Socialização e reflexão (10 a 15 minutos)
Após o término das pinturas, os trabalhos são expostos em um mural coletivo ou em uma bandeira da turma. O professor conduz uma conversa final, questionando o que as crianças perceberam sobre as cores e sobre as plantas utilizadas. É importante destacar que todas as cores vieram de elementos naturais e que o Cerrado é um grande “laboratório de cores da natureza”. O fechamento pode incluir a leitura de um pequeno texto poético sobre o bioma ou uma música relacionada à natureza.
6. Adaptações para diferentes idades
Para a educação infantil, recomenda-se simplificar o experimento e enfatizar o aspecto artístico e sensorial. As crianças podem apenas observar a mistura das cores e depois usar as tintas já preparadas para pintar com os dedos ou esponjas. Para as turmas mais velhas, é possível aprofundar o conteúdo, explicando brevemente a função biológica dos pigmentos e discutindo sua importância histórica, como no uso do urucum por povos indígenas.
Sugestões Literárias
Livros principais para a prática
1. “A História de Akykysia, o Dono da Caça” - Adaptação e Ilustrações por Rita Carelli. Disponível em PDF
2. “Wajãpi - Somos Todos Iguais” - Autora: Vanessa Alexandre.
ROTEIRO: Extração de Pigmentos de Jenipapo e Urucum
1. Objetivos
Extrair pigmentos naturais presentes no jenipapo e no urucum.
Compreender processos de maceração, filtração e solubilidade.
Comparar pigmentos hidrossolúveis e lipossolúveis.
A. Extração do Pigmento do Jenipapo (genipina → azul/roxo)
Materiais
Jenipapos maduros
Faca e colher
Copo de vidro ou béquer
Filtro de café ou gaze
Luvas descartáveis (a genipina mancha MUITO)
Água
Pilão/macerador
Procedimento
1. Corte o jenipapo ao meio e retire a polpa com a ajuda da colher.
2. Coloque a polpa em um recipiente e adicione um pouco de água (só o suficiente para cobrir).
3. Macere bem a polpa até formar uma pasta homogênea.
4. Deixe repousar por 10–15 minutos. A genipina não é azul inicialmente — ela reage com o oxigênio e aminoácidos do meio.
5. Filtre usando filtro de café ou gaze, separando o líquido.
6. Observe: o extrato começa claro e, com o contato com o ar, fica azul/arroxeado com o tempo.
Por que funciona?
A genipina, presente no jenipapo, oxida na presença de ar e reage com compostos nitrogenados, formando pigmentos azuis. É um excelente exemplo de reação química natural.
B. Extração do Pigmento do Urucum (bixina/norbixina → laranja/vermelho)
Materiais
Sementes de urucum
Panela pequena ou béquer
Água quente ou óleo (dependendo do tipo de extração)
Colher ou mexedor
Filtro/gaze
Procedimento – Extração em água (norbixina)
(rende um pigmento mais amarelo/laranja)
1. Coloque as sementes em um recipiente resistente ao calor.
2. Despeje água quente por cima (quase fervendo).
3. Mexa por 3–5 minutos.
4. Deixe repousar até esfriar.
5. Filtre para remover as sementes.
6. O líquido obtido será amarelo-alaranjado, rico em norbixina, pigmento hidrossolúvel.
Procedimento – Extração em óleo (bixina)
(rende um pigmento mais vermelho)
1. Aqueça um pouco de óleo vegetal (não deixe ferver).
2. Adicione 1–2 colheres de sopa de sementes de urucum.
3. Mexa por 5–10 minutos até o óleo ficar bem avermelhado.
4. Desligue o fogo e deixe esfriar.
5. Coe para separar as sementes.
6. O óleo ficará vermelho intenso, rico em bixina, pigmento lipossolúvel.
Por que funciona?
A bixina é lipossolúvel, então se dissolve bem em óleo.
A norbixina, sua forma hidrossolúvel, sai com água quente. Assim, o urucum permite ensinar polaridade e solubilidade de forma bem prática.